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Olá, meu nome é Marisa Pignataro, e venho mostrar para vocês a minha visão sobre o câncer.

É comum ouvirmos que, quando uma pessoa tem câncer, toda a família* adoece.

De fato, a doença balança todas as certezas, desperta medos e inseguranças, abala as finanças, dificulta planejamentos, muda a rotina, pode alterar funções (quem cuida de quem, quem provê o sustento, quem é responsável pelos cuidados da casa etc), mexe com o emocional de quem convive com o doente, enfim, traz mudanças e dores para todos.

A família é afetada mas, também, exerce papel importante no tratamento e na cura.Há grupos de apoio para doentes e familiares porque não é fácil enfrentar a doença. A maioria das enfermidades traz dor e sofrimento. Seus tratamentos, entretanto, costumam aliviar estes sintomas.

Com o câncer é diferente. A doença, em fase inicial, não tem sintomas ou dor (daí ser diagnosticada, não raro, em estágio já avançado). Por outro lado, os tratamentos convencionais têm efeitos colaterais que lembram mais uma doença que a cura. Em grande parte, trazem mais incômodo e mal estar que a própria doença. Lidar com esta inversão não é fácil. Talvez por isto exista tanta oferta de tratamentos alternativos. As pessoas buscam a cura, mas buscam, principalmente, um caminho menos doloroso. Afinal, é difícil entender que uma pessoa que não tinha qualquer sintoma e se pensava saudável, passe a apresentar sinais de doença justamente após o início do tratamento.

Não é rara a dúvida sobre a conveniência das quimioterapias e cirurgias. Assim como o pensamento de que o tratamento prejudica mais que ajuda. São tempos tumultuados para todos, cheios de medos e inseguranças.
Evoluímos muito no acolhimento ao paciente com câncer e a suas famílias, mas acredito que precisamos dar um passo adiante em direção à orientação aos familiares sobre seu papel no sucesso do tratamento.

Cobra-se muito dos pacientes que sejam positivos, que tenham fé, que sejam “guerreiros”. Asseguro que cobranças não ajudam quem já tem problemas a enfrentar.  Pressões externas e sentimento de culpa acabam por estressar e minar a autoestima dos doentes.

Lidar com a doença não é fácil, mas acreditar que ela se instalou ou não sumiu por nossa culpa, que não soubemos ser fortes, positivos, confiantes e tranquilos o suficiente, é uma carga maior e desnecessária. Quando falo, portanto, de orientar a família sobre seu papel no sucesso do tratamento, não quero, de forma alguma, levar para os familiares este mesmo tipo de pressão e cobrança. Tampouco quero afirmar que o sucesso do tratamento seja sinônimo de cura.

Afirmo, sim, que um paciente com câncer pode ter mais qualidade de vida durante o tratamento e que a família, bem orientada e apoiada, pode contribuir de forma significativa para isto. Falo por experiência própria e pela observação de outras pessoas com quem dividi e divido experiências, nos locais de tratamento, nas instituições que visito, nas redes sociais, na família, com amigos etc.

Sentir que a doença não tirou nossa essência é fundamental. Saber que, apesar de todas as mudanças de aparência e de comportamento, continuamos amados e importantes para a família é fortalecedor. Passamos a ter mais confiança quando sabemos que podemos contar com as pessoas amadas – que não estamos enfrentando esta fase sozinhos.

É tranquilizador sentir que não somos um fardo e que, em família, todos podemos cuidar ou demandar cuidados em determinados momentos. O bom-humor e a positividade, tão importantes, mais que serem cobrados do paciente, podem ser compartilhados, uns incentivando e contagiando os outros.

Agradeço, todos os dias, pela família que me apoia e se esforça para ser e me fazer feliz, para tocar a vida sem mudar nada além do indispensável, que brinca com a calvície, com as cicatrizes, com os cabelos diferentes que nascem após a quimioterapia etc.

Um ambiente de sofrimento e auto-comiseração não ajuda ninguém a ser feliz ou a ter esperança.

Como e onde a família vai buscar o ânimo, a força e a alegria para enfrentar este processo pode variar caso a caso, mas é fundamental ter este objetivo.

Particularmente, acho importante algumas premissas iniciais, como as que listarei a seguir, para manter o equilíbrio e a alegria. As frases estão dirigidas aos doentes, mas lembrem-se que acredito que toda a família adoece junto, portanto, é também a ela que me refiro:
O câncer acontece com qualquer pessoa, não é azar, não é castigo, nem consequência de algum erro de comportamento ou de caráter. Não procure razões para a doença, não se culpe por estar doente.
O câncer não é sentença de morte – a vida é. Todos vamos morrer. Ninguém sabe quando, nem de quê. A descoberta do câncer não muda esta verdade. O fato não traz qualquer certeza sobre quando ou como deixaremos esta vida.
– Pode ser que não haja cura, mas morrer antes do tempo ou estragar os dias que nos restam com mau-humor, medo e tristeza é desperdício.
– A doença é um problema para quem está doente e para todos que convivem conosco. Não vale a pena criar mais problemas para nós, nem para quem está ao nosso lado.
O câncer não é a única, nem a pior doença do mundo. Há muita gente enfrentando esta e outras doenças o tempo todo no mundo.
– Ninguém é feliz todo dia, o dia inteiro. Quem tem câncer também não. Permita-se chorar e ficar triste de vez em quando.
– As pessoas que nos são caras devem ser apreciadas, cuidadas e amadas a cada oportunidade, pois isto é o melhor da vida e são estas as marcas que deixamos em seus corações.
– A vida é vivida um dia de cada vez. Não se prenda ao futuro, não foque no resultado, nem deixe a vida para depois da quimioterapia, depois da cirurgia, depois da radioterapia…. Hoje é tudo o que todos nós temos, independente da doença.

* Entendo por família toda e qualquer organização de convivência entre pessoas que envolva algum grau de afetividade, podendo, inclusive, ser o círculo de amizades.

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